Nasce um Deus. Outros Morrem. A Verdade nem veio nem se foi: o Erro mudou.

Aconteceu, como tem vindo a ser hábito, passar mais um ano. Para os menos informados, esclareço que foi o 2010º ano da era cristã, isto é, com os dias a contar da suposta data do nascimento de Cristo que, como quase todos os representantes e agremiações diversas da divindade, reclama para si a data do solstício de Inverno como sendo a alvorada de algo mais, um renascimento, por assim dizer. E de solstício em solstício, lá vai o mundo dando as suas voltas em torno de si mesmo, e o nosso planeta em torno do Sol, não exactamente renascendo, mas evoluindo, para o bem e para o mal.

Nasce um Deus. Outros Morrem. A Verdade nem veio nem se foi: o Erro mudou.

Foi nesta reflexão em torno do solstício e do contínuo rodar do mundo, dos falsos renascimentos e das evoluções e expansões, que me fixei num poema de Fernando Pessoa, precisamente acerca do assunto, do qual resolvi adoptar os dois primeiros versos para a tagline deste blog.

Nasce um Deus. Outros morrem. A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.

Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.

Sabemos que Pessoa é, em si, uma metafísica poética, mas não é por aí que eu vou. Como leitor sensível do poeta, reservo-me a liberdade de interpretação do texto como muito bem me dê jeito, e fico-me pelo sentimento de ver ali confirmadas as minhas elucubrações acerca deste tema do renascimento: uma futilidade reservada aos mais ingenuamente esperançosos.
E porquê este rebuscado intróito? Porque esta nova edição do fractura.net é isso mesmo, nova, e não um renascimento.

Houve tempos em que sentia prazer nas páginas em branco de um caderno por estrear, na fragrância celulósica ao correr as páginas, na ansiedade do primeiro risco. Hoje, escrevo sempre no mesmo caderno, já não há nada por estrear, está tudo por acabar.
E este fractura.net não é mais do que a continuidade eternamente efémera da publicidade a mim próprio, aos que leio e aos que nos lêem. Não sei ainda quanto tempo irão durar estas páginas, não se programam os ventos que levam a mandala – ou, como diria Pessoa, «não procures nem creias: tudo é oculto», frase que me permito descontextualizar a bem do post.

Entretanto, sejam uma vez mais bem vindos a esta nossa casa.

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