Seria bom que José Sócrates atentasse nas palavras de Ana Gomes e viesse a público dizer algo de concreto acerca das alegadas pressões para o controle dos media portugueses. Aos portugueses, que se vêem diante de um governo acusado, à esquerda e à direita, por jornais e jornalistas, de atentar contra o estado democrático de direito que somos, já não basta enviar palavras de educadores como Santos Silva .
Convém, no entanto, que Sócrates pense um pouco ao que vai responder. O artigo do jornal Sol , onde são divulgados excertos das escutas telefónicas, embora possa ser considerado dinamite cerebral por alguns outros educadores, trata-se de uma violação do segredo de justiça, já que o processo ainda não transitou em julgado. Ainda no que ao artigo do Sol se refere, devemos ainda considerar que os excertos, tomando o todo pela parte, poderão estar fora do contexto, alusão que fazem alguns dos implicados que solicitam agora a publicação integral das escutas para que se desfaçam dúvidas.
Mas os dados publicados pelo Sol estão cá fora e não há vislumbre de algum tipo de comunicação ao país no sentido de esclarecer dúvidas ou, sob o prisma estritamente político, de fazer algum controle de danos. Multiplicam-se as mensagens, o governo faz dele as palavras do Presidente da República, enviam-se os explicadores do costume aos jornais e à televisão.
Por outro lado, a política: PCP e BE apostam na matéria como forte fonte de desestabilização do governo já muito fragilizado, em nome de uma suposta manutenção da liberdade de expressão e do estado de direito. O CDS parece querer aproveitar a ocasião para ser o baluarte da ética, já que sabe perfeitamente que o PSD nunca o poderá ser – os sociais-democratas estão demasiado fragilizados no que à moral respeita, uma vez que, se não toleram estas coisas de Sócrates, já toleram muitas mais a Alberto João Jardim , muitas mais e muito mais graves e escandalosas. Por fim, o PS que parece estar enfiado numa bolha hermética, no que se pode ter a certeza de ser tudo menos uma boa política, quer no que à transparência exigida, quer no que aos possíveis danos concerne. Não adianta apostar numa estratégia de vitimização. Já demos para esse peditório.
É tanto mais importante que José Sócrates dirija a palavra ao povo que governa quanto as coisas vão assumindo proporções que colocam o país na rota dos que são considerados atentatórios das mais básicas liberdades.
A realidade é que Portugal está prestes a passar a ser considerado uma espécie de República das Bananas, à semelhança de qualquer outra da América do Sul ou da África Equatorial: à pobreza, miséria, desgoverno, défice e crise, juntam-se as obras de grandiosidade de Estado Novo e o atentado à liberdade. Se não é assim, é essa a imagem que passamos, pelo menos a confiar na opinião que estrangeiros me dão acerca deste meu país.
E agora, a manifestação proposta por alguns bloggers da nossa praça. Esta manifestação “Todos pela Liberdade ” não contará comigo – e passam muito bem sem mim – por alguns motivos.
Desde logo, pelo nome. A Liberdade, assim, com capital no seu início, sempre me fez alguma confusão. Que lhe chamem liberdade de expressão ou liberdade de imprensa – que considero ser o caso -, que lhe chamem outra liberdade qualquer. Nunca existiu algo mais perigoso do que uma luta pela Liberdade.
Depois, porque os signatários do manifesto são, na sua grande maioria, pessoas que vivem à sombra do poder instituído, o mesmo poder corrupto que, se hoje faz esta luta, noutras ocasiões a silenciou e em ocasiões futuras há-de tomar as mesmas medidas de Sócrates, se não piores.
E ainda porque alguns dos signatários do manifesto são os mesmos que, em tempos idos, advogaram uma tal liberdade para com os donos das empresas de comunicação interferirem na vida das redacções, tendo curiosamente defendido essa posição no decurso do caso Manuela Moura Guedes. E veja-se, já agora, de onde vêm as iniciativas. Como de costume, são assinadas, organizadas e postas em marcha pela nova coqueluche do marketing: relacional, de guerrilha e viral .
Por fim, porque este manifesto e esta manifestação tem contornos marcadamente políticos que nada têm a ver com a defesa dessa tal Liberdade para os jornalistas e, em suma, para o povo que estes informam. Tem, isso sim, o aproveitamento que as redes sociais proporcionam e que poderá ajudar ao seu objectivo único, o de fazer mossas no governo, já que está a obter a desejada câmara de eco por parte dos órgãos de comunicação social.
Sabemos que não existe poder que não pressione os media . É irracional pensarmos que, num ou noutro momento, o poder não ceda a essa tentação. Temos visto isso a acontecer, quer com governos do PS, quer com governos do PSD, para não falar dos tempos do PCP que são já longínquos, ou do caso da Madeira, um arquipélago sem direito a história que não seja a escrita pelo Rei do Carnaval, Alberto João.
Isso, claro, não desculpa nada. A existir uma leve suspeita que seja de condicionamento da liberdade de imprensa, de pensamento ou de expressão, esta deve ser de imediato investigada pelas instâncias próprias.
Não se deve, no entanto, recorrer a tácticas de subversão como as que estão a ser postas em prática, com o intuito de denunciar esse condicionamento ou, como me parece ser o caso, de aproveitar a suspeita para abalar um pouco mais o governo.
O que deve ser feito é remeter essas suspeitas, de imediato, para a Assembleia da República, órgão que me parece ser o mais adequado para, em conjunto com os mais altos magistrados do país, decidir se existe ou não uma pressão atentatória dos direitos e liberdades que a democracia do nosso estado de direito deve garantir aos seus cidadãos.
Para além disso, creio ser mais do que hora de rever os critérios éticos e deontológicos da profissão de jornalista, no sentido de permitir aos jornais a adopção de uma linha editorial mais próxima de um ou outro partido ou ideologia.
Esta forma de estar no jornalismo permitiria ao cidadão que comprasse um jornal saber, de forma transparente, qual a facção que o jornal apoia, sem prejuízo da isenção noticiosa. O consumidor poderia estar consciente da proximidade política que, apesar de não condicionar a isenção, condicionaria a agenda. E saberia que jornal comprar.
Creio que poderíamos acabar de uma vez por todas com duas presenças obscuras: as pressões sobre os media e os espantalhos políticos .
